Blog do Deco Bancillon

Trump com Covid pode provocar reviravolta em eleições dos EUA

Presidente dos Estados anunciou que ele e a primeira-dama, Melania, tiveram diagnóstico positivo para o coronavírus e entraram em isolamento na Casa Branca. Notícia estressou mercados, porque, a 32 dias das eleições, não se sabe quem poderá ganhar ou perder com o afastamento do candidato republicano da campanha

DECO BANCILLON | BRASÍLIA

A confirmação de que o presidente dos EUA, Donald Trump, e a primeira-dama, Melania, contraíram o novo coronavírus pode provocar uma reviravolta nas eleições norte-americanas. Em apenas um mês, os eleitores daquele país vão decidir quem irá guiar a maior economia do mundo pelos próximos quatro anos.

Até as últimas semanas, as apostas eram de que o vice de Obama, Joe Biden, que concorre pelo partido democrata, estaria à frente das pesquisas de intenção de voto, sentimento que se consolidou após a realização do primeiro debate entre os dois candidatos, em que a maior parte dos eleitores e analistas apontou Biden como o grande vencedor.

Eram esperados mais dois debates entre os dois candidatos, o que poderia servir para consolidar ainda mais a vantagem de Biden, justamente após a revelação-bomba do jornal New York Times de que Trump não pagou imposto de renda em 10 dos últimos 15 anos.

Bolsas caem com notícia de contaminação de Trump

A confirmação de que Trump e Melania contraíram o novo coronavírus, no entanto, muda completamente esse cenário. “O fato dele (Trump) ter anunciado que pegou COVID-19 apenas poucos dias após o debate que ele perdeu (segundo pesquisas e mesmo casas de apostas) pode dar a ele alguma vantagem eleitoral, podendo até evitar mais debates. Seja como for, a saúde do presidente dos EUA é assunto sério e que temos que monitorar de perto”, escreveu o economista-chefe da Necton Corretora, André Perfeito, em análise enviada ao Blog Deco Bancillon.

Confirmação de Trump saiu na madrugada de sexta-feira

Trump anunciou na madrugada de sexta-feira, por volta da 1h da manhã, o resultado de seu teste para Covid. Já pela manhã, mercados na Europa e nos EUA recuam com notícia. Bolsas abriram em queda, e o índice Dow Jones iniciou a sessão registrando perdas de 1,6% no mercado futuro – uma espécie de pré-negociação que é feita antes mesmo do pregão ser iniciado.

O pessimismo dos mercados se deve a incertezas sobre o futuro das campanhas de ambos os candidatos. A 32 dias da eleição, o afastamento de Trump deve mudar radicalmente o ritmo da campanha, com consequências políticas ainda imprevisíveis, inclusive para Biden.

Afastamento de Trump pode prejudicar Biden

O candidato democrata vinha subindo nas pesquisas ao apontar um despreparo de Trump para lidar com os inúmeros desafios lançados aos Eua, sobretudo após a pandemia. Acostumado a não usar máscaras em público, cumprimentar eleitores e minimizar os efeitos da pandemia, Trump era considerado um político que demonstrava pouca sensibilidade aos efeitos do coronavírus, doença que já matou mais de 1 milhão de pessoas em todo o mundo, sendo mais 200 mil óbitos apenas nos EUA.

Agora, Trump é vítima dessa doença. Ele vai ter que ficar recluso por pelo menos 14 dias e torcer para ter uma versão leve do vírus, já que, devido a idade elevada, 74 anos, ele é considerado grupo de risco para a Covid-19.

Trump com Covid pode obrigar Biden a reduzir ataques

Biden terá que recalibrar seus ataques para que não passe ao público a sensação de que ele é insensível ao diagnóstico do concorrente, o que poderia sepultar as suas intenções de voto junto ao eleitor indeciso – justamente o pêndulo de uma eleição tão disputada e tumultuada, ainda mais em se tratando dos EUA, onde o voto não é obrigatório.

Afastado da campanha, Trump também fica impossibilitado de comparecer a debates, o que pode ser particularmente ruim para Biden, visto que ele se saiu melhor no primeiro embate entre os dois candidatos.

Algo semelhante aconteceu no Brasil quando o então candidato Jair Bolsonaro sofreu ao tentado durante comício em Juiz de Fora. Hospitalizado, Bolsonaro passou a ser poupado dos debates, que ocorreram com os demais candidatos, e também ganhou uma cobertura mais positiva da imprensa e até por parte dos candidatos, que, diante de um adversário hospitalizado, que lutava pela própria vida, tiveram que baixar o tom dos ataques.

Dificuldades também para Trump

É fato, porém, que a contaminação do presidente dos EUA também afeta negativamente a campanha republicana. Trump tinha uma série de compromissos de campanha para os próximos dias, como comícios eleitorais presidenciais e eventos de arrecadação de fundos. Se ele tiver um ciclo normal de recuperação, de 14 dias, isso significa perder praticamente metade do tempo disponível para campanha, tendo em vista a eleição em 3 de novembro.

Para os próximos dias, Trump tinha uma série de comícios preparados. Esses eventos eram considerados particularmente importantes para a campanha devido à capacidade de Trump de se articular e criar fortes discursos.

A verdade é que, com a contaminação de Trump, qualquer resultado pode acontecer.

Nunca antes a eleição norte-americana causou tanta incerteza.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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