Blog do Deco Bancillon

Responsável pela ira de Bolsonaro, assessor de Guedes deve ser demitido

Secretário especial de Fazenda irritou o presidente ao revelar em entrevista planos do governo para congelar aposentadorias em troca de recursos para o Renda Brasil

Waldery Rodrigues (à esquerda) é o número 2 da pasta comandada pelo ministro Paulo Guedes

DECO BANCILLON | BRASÍLIA

O conhecimento popular tornou célebre a expressão boi de piranha.

A definição é usada para descrever o animal geralmente ferido ou adoecido que é lançado à própria sorte para proteger o restante da boiada durante uma travessia perigosa.

Melhor definição não existe para descrever o processo de fritura pública a que tem sido submetido o secretário especial de Fazenda do Ministério da Economia, Waldery Rodrigues, espécie de número 2 da pasta comandada pelo ministro Paulo Guedes.

No domingo, em entrevista ao G1, o secretário revelou os planos do governo de congelar aposentadorias e benefícios como o BPC, pago a aposentados miseráveis e pessoas com deficiência, para viabilizar financeiramente o Renda Brasil, programa que viria a substituir o Bolsa Família.

Embora o assunto fosse tratado sem reservas no Ministério da Economia, inclusive pelo próprio ministro Guedes, um dos idealizadores da proposta, coube a Waldery o ônus da ideia.

“Sem coração”

A ele foram atribuídos os impropérios que Bolsonaro usou para descrever a “gente sem coração” que defendia a ideia, mencionando que, a pessoa de seu governo que mencionasse novamente no assunto receberia “cartão vermelho” do presidente. Irritado, o presidente não apenas enterrou a ideia de congelamento como determinou o cancelamento do Renda Brasil. Assim, o programa que viria a substituir o Bolsa Família tornou-se natimorto. Teve fim antes mesmo de ser lançado.

Fritura de Guedes

A polêmica fez subir a pressão no Planalto e levou gente importante em Brasília a questionar a permanência de Paulo Guedes no governo. Fragilizado, o ministro vê mais um de seus projetos serem rejeitados pelo presidente. Aconteceu o mesmo antes com a reforma administrativa, que foi esvaziada por Bolsonaro, e também com a proposta de recriação da CPMF, cuja recepção negativa foi tamanha que levou à demissão de outro assessor próximo de Guedes: o então secretário da Receita Marcos Cintra.

Aposentadorias congeladas

No episódio do congelamento das aposentadorias, Guedes voltou a ser pressionado. Na terça-feira, as mesas de operação no mercado financeiro ficaram à espera de uma notícia sobre um possível pedido de demissão do ministro, que preferiu contemporizar e culpar a imprensa pela polêmica com a medida. Mesmo assim, ficou claro que o assunto gerou um desconforto tamanho no Planalto que Guedes precisaria agir para apagar o incêndio criado.

A verdade é que até as hienas do Palácio da Alvorada já sabiam que, nessa confusão toda, se alguém tivesse que cair para segurar encerrar a polêmica com o Renda Brasil, esse alguém seria Waldery. Por dois motivos: o primeiro é que assessores são anteparo de faíscas. São como fusíveis em um quadro de luz. Quando há aumento da tensão, são eles que queimam para proteger o bem maior, nesse caso o ministro ou, em última análise, o próprio presidente.

O segundo motivo é que, embora seja bastante próximo a Guedes, a verdade é que Waldery nunca foi uma unanimidade na equipe econômica. Remanescente de outras gestões, o secretário era visto como um técnico esforçado, mas apenas isso.

Assim que teve início esse governo, o blog Deco Bancillon teve uma conversa com um alto integrante da equipe econômica. Ele manifestou preocupação com o fato de Waldery ter pouca experiência nesse tipo de cargo e de ter sido subordinado, em administrações anteriores, a muitos dos secretários que ele passaria a chefiar na gestão Bolsonaro. “É difícil acreditar que pessoas que até ontem davam ordens a ele vão agora entender bem essa mudança de comando”, disse a fonte.

Não deu outra. Em pouco menos de dois anos no cargo, Waldery colecionou diversas polêmicas. A mais recente foi quando afirmou, também em entrevista, que Mansueto Almeida deixaria o cargo. A frase foi dita no final de 2019. Mansueto, por sua vez, só deixou o cargo seis meses depois.

Mais recentemente, o secretário de Política Econômica, Adolfo Sachsida, que é subordinado a Waldery, condenou publicamente o chefe em entrevista. Ao ser questionado sobre a polêmica em torno da criação do programa Renda Brasil, Sachsida avaliou que propostas como essa não deveriam ser tratadas publicamente.

“O que me parece que o presidente Bolsonaro coloca corretamente é que as discussões não podem ser públicas. Você não pode ficar lançando ideias publicamente. Acho que foi isso que ele deixou claro”, disse Sachsida, cuja secretaria é subordinada a Waldery Rodrigues.

Alvo da fritura pública, Waldery permaneceu calado.

Ele já foi comunicado de que Guedes espera seu pedido de demissão para encerrar o assunto.

O que se comenta, no entanto, é que o sacrifício do auxiliar não deve abrandar a fervura de Guedes.

Como na travessia em terrenos perigosos, é preciso guiar a boiada por terras seguras.

Uma hora não haverá mais bois fracos ou feridos para lançar à própria sorte.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.