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Bolsonaro repete no MEC receita que deu errado em outras nomeações turbulentas

Mal havia se sentado à cadeira de ministro, o professor Milton Ribeiro foi surpreendido pela decisão do presidente de nomear olavistas para o Conselho Nacional de Educação

Quarto titular do MEC de Bolsonaro é surpreendido com nomeações para o CNE. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

DECO BANCILLON | BRASÍLIA

A despeito de frases polêmicas que já correm as redes sociais, como quando disse que universidades ensinam o “sexo sem limites” e quando pregou que pais devem “causar dor” ao educar seus filhos, o novo ministro da Educação, o professor e pastor evangélico Milton Ribeiro, tem pela frente desafios bem maiores do que apenas se explicar sobre declarações controversas dadas do passado.

A julgar por um gesto feito pelo presidente Jair Bolsonaro antes mesmo de Ribeiro ser nomeado ministro, tudo leva a crer que o teólogo e ex-vice-reitor da Universidade Presbiteriana Mackenzie precisará contar com a providência divina para superar todas as provações que terá no cargo.

Bolsonaro interfere no Conselho Nacional de Educação

Indicado para o MEC na noite de quinta passada, durante a live semanal do presidente Bolsonaro, o ministro foi surpreendido já na manhã de sexta-feira pela publicação no Diário Oficial dos 10 novos integrantes do Conselho Nacional de Educação (CNE). Principal conselho do MEC, o CNE é um colegiado que formula e avalia a política educacional do país. Ele é composto por 24 membros com mandato de quatro anos.

Por ser um órgão auxiliar do ministro, é natural que o titular da pasta indique os nomes das pessoas que vão ajudá-lo a discutir as políticas e ações de sua pasta. Por isso estranhou que o presidente Bolsonaro nem sequer tenha discutido os nomes que seriam com Ribeiro. Pior do que isso: os 10 novos titulares do conselho foram uma escolha pessoal do antigo titular do MEC, Abraham Weintraub, que embora tenha embarcado para os EUA, ainda mantém forte influência sobre as decisões e o dia a dia da pasta.

A ingerência em assuntos internos do MEC não chega a ser uma surpresa na gestão Bolsonaro. Quem acompanha o dia a dia do governo já reparou que o presidente até promete, mas nunca entrega de fato o controle de uma área ao nomeado.

A demissão de Regina Duarte

Foi assim com a indicação de Regina Duarte para comandar a Secretaria Especial da Cultura. Prometeu-lhe “porteira fechada”, como a ex-atriz fez questão de frisar em sua cerimônia de posse. A verdade, no entanto, foi que Regina pouco pôde fazer no cargo.

Suas nomeações foram barradas pela Casa Civil e até mesmo seus secretários diretos eram escolhidos a dedo pelo Planalto. Para piorar, chegou a ser desafiada em público pelo presidente da Fundação Palmares, Sergio Camardo, que fez campanha aberta nas redes sociais pela demissão da ex-global. Regina, contrariada, fez chegar ao entorno do presidente que, sem autonomia, não ficava no cargo. O desfecho foi a demissão da “namoradinha do Brasil” e a manutenção de Camargo no cargo.

Sergio Moro, ex-super-ministro

A demissão de Sergio Moro do Ministério da Justiça e Segurança Pública seguiu o mesmo roteiro. Ao ex-juiz da Lava Jato fora prometido mundos e fundos para que aceitasse a missão de liderar o combate à corrupção e ao crime organizado no governo Bolsonaro. A realidade, no entanto, era bem menos vistosa do que Moro poderia esperar.

Tão logo assumiu, tentou indicar Ilona Szabó para uma vaga de suplente no Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária. Mestre em estudos de conflito e paz e especialista em segurança pública, Ilona recebeu ataques da chamada ala ideológica do governo, que pediu a revogação de sua nomeação ao presidente Bolsonaro. Contrariado, Moro não pôde fazer a não ser revogar a nomeação de Ilona Szabó.

O que se seguiu foram tentativas do presidente em mexer em posições de comando na Polícia Federal, trocando superintendentes e indicando seus substitutos, até a gota d’água, na visão de Moro, quando Bolsonaro decidiu demitir o diretor-geral da PF à revelia do super-ministro.

Outros órgãos que também tiveram ingerências diretas de Bolsonaro foram o antigo Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras), o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), a Apex (Agência de Promoção de Exportações e Investimentos) e o INSS (Instituto Nacional do Seguro Social).

Em todos esses casos, as ingerências do presidente no staff desses órgãos levaram à demissão de seus titulares, provocando desgastes na equipe e paralisia no comando de importantes ações. Por isso, resta saber se a fritura que se viu com Moro e Regina se seguirá com o novo ministro do MEC. O teste de fogo será a escolha de sua equipe de secretários, hoje formada em sua maioria por nomes indicados ou que tiveram a benção do escritor Olavo de Carvalho.

Cenas dos próximos capítulos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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