Blog do Deco Bancillon

Até Bolsonaro pegar Covid-19, máscara era item não recomendável em “dress code” do Planalto

No dia a dia do Palácio do Planalto, o uso de máscaras era considerado “pouco recomendável” e visto como uma gafe pelo presidente

Bolsonaro estende a mão e é cumprimentado com o cotovelo pelo comandante do Exército, general Edson Pujol.

DECO BANCILLON | DE BRASÍLIA

Já é sabido que o presidente Jair Bolsonaro, antes de anunciar ter contraído a Covid-19, frequentava aglomerações e eventos sociais sem se preocupar com normas básicas de proteção sanitária. Foram inúmeras as vezes em que ele se deixou fotografar sem máscara ou quando deixou convidados constrangidos ao oferecer um aperto de mão quando a recomendação de autoridades médicas é evitar o contato social de qualquer tipo.

Com gestos como esse, Bolsonaro sempre quis transmitir a ideia de que haveria “histeria” por parte da imprensa e da comunidade científica com relação à letalidade do coronavírus, doença que ele classificou como “gripezinha, resfriadinho”.

Para muitos, a atitude do presidente de não usar máscara de proteção e de frequentar aglomerações era jogada de marketing. Uma decisão consciente de se expor ao perigo para incentivar seus eleitores a não temerem o coronavírus e seguir normalmente com suas vidas.

Mas o que pouca gente sabe é que, mesmo no dia a dia do Planalto, o uso de máscaras era considerado pouco recomendável e até uma gafe por parte do presidente. Quem frequenta o terceiro andar do Palácio do Planalto, onde o presidente e seus principais assessores dão expediente, lembra que o uso de máscaras não faz parte do “dress code” presidencial. Assim, ministros e até mesmo convidados externos, como empresários e políticos, eram orientados a não usar a máscara quando estivessem reunidos com Bolsonaro.

Nesse período, um episódio chamou a atenção. Em maio, em visita ao Comando Militar do Sul, em Porto Alegre, Bolsonaro estendeu a mão e foi cumprimentado com o cotovelo pelo comandante do Exército, general Edson Pujol. O gesto, dizem auxiliares do presidente, deixou Bolsonaro irritadíssimo, levando o presidente inclusive a cogitar a troca no comando do Exército. De lá para cá, auxiliares diretos do presidente faziam chegar aos convidados a “orientação” para evitar gestos como o do general Pujol.

O problema é que, ao desestimular o uso de medidas de proteção, Bolsonaro não só trouxe risco para si mesmo mas também a quem esteve com o presidente recentemente.

Nos últimos dias, Bolsonaro participou de cerimônias públicas e interagiu, sem máscara, com centenas de pessoas não só em Brasília, mas em quatro estados que visitou. Até mesmo o embaixador dos Estados Unidos no Brasil, Todd Chapman, com quem o presidente almoçou no sábado – quando já estava com sintomas da doença – avisou que fez o teste para saber se havia ou não contraído a Covid-19. O resultado deu negativo.

Ministros e empresários que se reuniram com o presidente nos últimos dias também já começaram a fazer o teste para diagnosticar ou não a presença do vírus.

Esse episódio da contaminação, na avaliação de quem está acostumado a lidar diariamente com o presidente, não deve trazer qualquer mudança na postura de Bolsonaro com relação à doença. Mas há uma dúvida no ar: após ter colocado tanta gente em risco por não ter usado a máscara de proteção, estaria o presidente disposto a aceitar que pelo menos outras pessoas queiram se proteger quando estiverem em sua presença?

A conferir.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.