Blog do Deco Bancillon

Arroz a R$ 40? Entenda como a alta do arroz virou um pepino para o governo

Dólar alto, aumento das exportações, redução das importações. Entenda por que o arroz ficou até 100% mais caro nos últimos meses

Se você faz mercado, já deve te reparado: o preço do arroz não para de subir.
Antes da pandemia, você encontrava facilmente um pacote de cinco quilos por R$ 15. Agora, o valor pulou para incríveis R$ 40 na gôndola.


Com o aumento dos preços vieram os memes:

“Com esse preço, melhor trocar a chuva de arroz nos noivos após a cerimônia de casamento por papel picado”, publicou no Twitter a deputada federal Renata Abreu, presidente nacional do Podemos.


Não demorou para que o presidente Jair Bolsonaro também se manifestasse sobre o assunto: “Estou pedindo um sacrifício, patriotismo para os grandes donos de supermercados para manter na menor margem de lucro”, disse Bolsonaro, fazendo um apelo para que as margens de lucro de produtos como o arroz fiquem “próximas de zero”.


A ministra da Agricultura, Tereza Cristina, também se pronunciou sobre o assunto. Questionada por uma youtuber mirim, a ministra afirmou que não vai faltar arroz para o consumidor. “O arroz não vai faltar; agora ele tá alto, mas nós vamos fazer ele baixar. Se Deus quiser vamos ter uma supersafra ano que vem”, garantiu Tereza Cristina.


Com super safra ou não, é certo que o preço do arroz vai continuar subindo nos próximos dias e semanas. E o motivo não é falta de patriotismo ou mesmo a falta de arroz nas prateleiras, mas uma lei que é tão antiga quanto a própria ideia de civilização. Sim, eu estou falando da lei da oferta e procura.


Para explicar a alta do preço do arroz, primeiro vamos entender o contexto da economia em 2020.


Com a pandemia global, as famílias em todo o mundo trocaram escritórios pelo home office. Com isso, reduziram as saídas ao restaurante e passaram a cozinhar mais em casa. O resultado foi um aumento na procura por itens da cozinha básica, como feijão, arroz, óleo, leite.


Para piorar, muitos países que sempre foram grandes produtores de arroz passaram a limitar exportações para garantir o abastecimento ao mercado interno. É o caso da Índia, Tailândia e Vietnã. Sem o arroz desses países asiáticos, aumentou a procura pelo arroz brasileiro.


E aí entra outro problema que se somou à maior procura pelo arroz brasileiro.


Dólar alto, estamos falando de você.


Tá certo que a valorização da moeda norte-americana já ocorre há vários meses, mas esse movimento se intensificou durante a quarentena. Assim, o dólar, que era negociado em média a R$ 4,10 no começo do ano chegou a quase R$ 6 no auge do confinamento. Em 13 de maio, a cotação chegou a bater em R$ 5,90.


A alta do dólar é ruim para muita gente, mas não para todo mundo.
Os produtores de cereal, por exemplo, foram beneficiados.
Assim, eles passaram a concentrar as vendas de arroz para outros países, como o México, e passaram a receber em dólar.


Enquanto isso, justamente por conta da alta do dólar, os mercados que importavam arroz passaram a reduzir as compras.


Enquanto as exportações de arroz beneficiado saltaram 260% entre março e julho deste ano, para 300 mil toneladas, no mesmo período, as importações do produto no período despencaram 59%, para 48,3 mil toneladas. E aí não tem jeito: se tem mais arroz saindo do Brasil do que entrando, o preço sobe.
E subiu bastante. Segundo a Associação Brasileira da Indústria do Arroz (Abiarroz), o produto comprado dos produtores pelas indústrias ficou 30% mais caro só em agosto. Reforçando: 30% de aumento APENAS em agosto.


É claro que os supermercados, diante da alta dos custos, decidiram repassar os valores para o consumidor. Levantamento do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada da Universidade de São Paulo mostra que a alta do arroz chega a 100% em 12 meses. E, por mais que o governo apele ao patriotismo e boa vontade dos supermercados, diante desse quadro de falta de produto lá fora e alta do dólar, é difícil imaginar que os preços sigam outra trajetória que não seja de alta.


Por fim, vale lembrar que uma das medidas que poderia efetivamente garantir a queda dos preços foi ignorada pelo governo e indústria.
Entre os países do Mercosul, há um acordo para exportação e importação de mercadorias pagando um imposto baixo. Esse acordo, chamado de Tarifa Externa Comum (TEC), vale para vários itens da pauta de exportações. Entre eles, a do arroz.

Assim, o setor se reuniu na semana passada para discutir se aprovava ou não uma redução na taxa de 16% sobre o arroz importado do Mercosul. Caso a medida fosse aprovada, os supermercados poderiam comprar o arroz importado pagando um imposto menor. Logo, esse menor preço e maior quantidade do item se traduziriam em preços menores nas gôndolas. Mas…. o comitê que decide a questão, composto por produtores, indústria, cooperativas e governo, barrou a medida, com 16 votos contrários, seis favoráveis e uma abstenção.


Assim, fica tudo como está. Preços altos, dólar lá em cima e apenas os produtores ganhando dinheiro com a falta de arroz no mercado.


Desse jeito fica difícil apelar ao patriotismo dos donos de mercados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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