Blog do Deco Bancillon

Sem vender estatais e fazer reformas profundas, país poderá quebrar no começo de 2021

Apertem os cintos! Pandemia fez desemprego chegar a 14 milhões e agora ameaça continuidade de programas sociais no próximo ano

SÍLVIO RIBAS | BRASÍLIA

Esse tumultuado 2020, que ora se encaminha para o seu fim, é, sem medo de errar, o mais penoso para a vida da maioria dos brasileiros. Graças ao inesperado e amargo impacto mundial da pandemia da Covid-19, demandas emergenciais em inéditas e gigantescas escalas emergiram do nada e foram sendo cobradas apenas do caixa federal, já muito combalido pelos bicudos anos anteriores.

Após 10 meses do contínuo desembolso de centenas de bilhões de reais para preservar a saúde da população diante da realidade do novo vírus e para sustentar pessoas sem emprego e renda, além de impedir o colapso generalizado de negócios e das próprias administrações públicas estaduais e municipais, os efeitos da crise sanitária ainda não foram totalmente contidos e marcham firmes no próximo ano.

Com número recorde de desempregados atingido recentemente, acima de 14 milhões, o país segue o rumo do abismo fiscal nos primeiros meses do próximo ano, inaugurando novo desafio para governo e Congresso Nacional. Para piorar, não sabemos nem mesmo quando será votado o Orçamento da União para o exercício fiscal de 2021.

Essa situação alimenta incertezas para investidores, empregadores e famílias. Já pensou se faltar dinheiro para pagar os programas sociais numa hora dessas? Parafraseando a canção Alegria, Alegria, de Caetano Veloso, o país caminha contra o vento sem lenço nem orçamento, no sol de quase dezembro. Os ânimos políticos se exaltam com os jogos eleitorais, mas é nos descaminhos da economia que todos se chocarão logo mais.

Tal impasse é ainda mais preocupante ao percebermos que poderemos não aproveitar completamente a onda de capitais externos que começam a chegar em razão da vitória de Joe Biden na disputa pela Casa Branca.

Foi por isso que, com a aflição sustentada na realidade, o czar a política econômica, ministro Paulo Guedes, apelou a parlamentares em momentos diferentes ao longo do ano para o ajudarem a “salvar a República”. Com argumentos para aprovar e barrar projetos relacionados à estabilidade das finanças do país, teve de fazer malabarismo para o caldo não entornar.

Agenda urgente

Mas se não houver acordo célere e consistente até abril de 2021 em torno da agenda macroeconômica, a coisa desanda perigosamente. As medidas urgentes e à altura da gravidade do momento, com muitas e vultosas privatizações mais reformas estruturantes, leia-se a administrativa ou do Estado e a tributária, precisa deslanchar rápido. No seu mais recente grito de socorro, Guedes faltou até de uma possível volta da hiperinflação.

A advertência do ministro sobre o risco de o país não conseguir rolar a dívida pública pode soar exagerada, considerando que a inflação ficará em torno de 3% este ano e que os juros básicos estão nos 2% anuais desde agosto. Mas o que seria mero terrorismo fiscal do ministro é, na verdade, a pura constatação de que o endividamento federal já quebrou o limite de segurança e, se seguir acelerado, consagrará o caos.

Mesmo com alguma retomada da atividade, a situação da economia emite sinais preocupantes de deterioração por conta do novo patamar da dívida pública, que beira 100% do Produto Interno Bruto (PIB). Como únicas opções para tapar o buraco restam privatizações de peso, cortes de gastos carimbados, criação de imposto (politicamente sensível) ou dar o calote, que poderia abrir a caixa de pandora e soltar os males adormecidos.

Uma forte deterioração das contas públicas e a explosão do passivo pode deixar o Banco Central sem ter condições de evitar a disparada do dólar e, por tabela, a velha carestia. Sem reformas, a desconfiança derrubará o Brasil. A hora não é de comprar lenço para chorar amanhã, mas de ter responsabilidade e coragem para evitar o pior.

Paulo Guedes ainda não sabe o que fazer para rolar os compromissos da dívida no começo do ano, com juros bem maiores que a Selic e encontra dificuldades para achar dinheiro para o Renda Cidadã (ex-Renda Brasil) ou ampliar o Bolsa Família, sem romper o Teto de Gastos, último dique a evitar a calamidade absoluta. Ousar é preciso, reclamar não é preciso.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.