Blog do Deco Bancillon

Por que os vilões da política tornaram a arte da negociação algo suspeito e mal visto?

Mau conceito da política brasileira tornou a expressão “maquiavélica” como sendo algo repugnante e pejorativo, relacionada ao despudor no exercício do poder. Mas o “maquiavelismo” também pode servir às causas justas e nobres da sociedade

SÍLVIO RIBAS | BRASÍLIA

O senso vulgar deu aos termos maquiavélico e maquiavelismo conotação pejorativa, como se eles definissem apenas perfis e gestos manipuladores de líderes e agentes do poder. De fato, a política e a vida corporativa estão povoadas de vilões de diferentes estaturas e as suas mal-intencionadas ações não são poucas, muitas delas tipificadas em O Príncipe (1532), livro clássico de Nicolau Maquiavel que inspirou os termos tidos como negativos.

Mas há uma verdade igualmente cristalina que a maioria das pessoas não consegue enxergar, por comodismo ou falta de informação. Perdeu-se no tempo o fato de que as ideias do escritor italiano contidas em seu texto antológico, base da teoria política moderna, não servem exclusivamente aos maus propósitos. Os bons também usam delas e é bom que usem mesmo. Tal qual esforço científico, Maquiavel explora objetivamente a natureza da relação entre governantes e governados, sem olhar o mérito ou a coloração ideológica do governo.

Aplicado à realidade brasileira, farta em contrastes culturais e sociais, o maquiavelismo reflete contornos próprios, que se mantêm ao longo de cinco séculos, desde o descobrimento do território, quase igual período desde que O Príncipe foi publicado pela primeira vez. Ainda hoje, quando avança nova etapa da bipolaridade política exagerada, próxima do nível do primitivismo político, nota-se o recorrente embate entre agentes e limites institucionais. O que hoje se convencionou a chamar de cálculo político ou de método é só clarividência.

Entendendo a política como a arte do possível, no contexto tupiniquim ela sempre se dá no confronto entre a esperança difusa de que o poder faça o melhor para a Nação e o momento extremo de ter de se fazer o que é necessário fazer. A virtú que requeremos de nosso príncipe (o presidente da República de plantão) não pode confundida com uma qualidade pessoal, mas a pré-disposição para executar uma tarefa exigida aos berros pelo momento.

Praticamente todos os episódios históricos mais importantes do país foram maquiavelicamente traçados em três dimensões: a possível, a desejada e a necessária. Assim foram as reformas que garantiram a estabilização do Plano Real e o teto de gastos que impediu o colapso das contas públicas. Sem elas, não continuaria a paz social e a continuidade de governos. Da mesma forma foi a Reforma da Previdência e assim será as demais reformas na fila.

Contudo, igualmente brasileiro é o acento que o conceito maquiavélico (o dado por Machiavel) de fortuna, o de sorte inesperada, alcança na trajetória dos governos. Ela, quando ocorre, acaba premiando governantes débeis ou induzindo outros a postergar aquilo que deve ser feito hoje. E o longo conflito que transcorre aqui como dança, com passinhos cá e lá, jamais oculta as mazelas nacionais persistentes nem as promessas negadas à maioria.

É então maquiavelicamente, ou seja, buscando a transformação possível sem tirar olhos do futuro almejado que os repetidos ciclos de incertezas e postergações do país serão quebrados. O cidadão que reconhecer o necessário a ser feito como inadiável ajudará governos bons e trará a todos fortuna como realização e não mais como acaso ou oportunidade desperdiçada. Políticos bem-intencionados precisam jogar o jogo e vencer.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.