Blog do Deco Bancillon

Pandemia vai acelerar ‘uberização’ de empregos

Mundo moderno traz inovações que facilitam a vida de todos. Mas, avanço tecnológico também ameaça empregos tradicionais, que não terão espaço no chamado “novo normal”

SILVIO RIBAS | BRASÍLIA

Galvanizado pela pandemia mundial da Covid-19, um espectro online ronda o mercado de trabalho, prenunciando mudanças radicais, de intensidade jamais antes vista. Trata-se de algo deveras desafiador e impactante, bem mais que o ocorrido após a primeira revolução industrial, no início do século 19, quando máquinas de teares chegaram para desempregar milhares de operários europeus. Viraram rotina reuniões virtuais em empresas, escolas, casas legislativas e tribunais. Logo, virão amplas e sólidas reestruturações.

O labor humano se descolará fortemente dos limites territoriais e já acena para o futuro sem fronteiras físicas, sobretudo na área de serviços. Termos como teletrabalho, uberização de empregos, nomadismo digital, entre outros, se incorporarão de vez à agenda corporativa no geral e irão à pauta de governos e Parlamentos. Uma amostra disso é quem usa tecnologia para executar tarefas profissionais de forma remota, sem base fixa. Personagem global, esse trabalhador leva vida autônoma e em constante deslocamento.

Desde março de 2020, o planeta tem enfrentado várias transformações, que se aceleram e têm ficado evidentes à cada trimestre. Nesse tempo de novos normais, vários setores são alvejados por práticas que já influenciam a economia. As organizações buscam se adaptar, mobilizando recursos e diminuindo gastos, gerando até desemprego estrutural. E questões como qualidade da conexão à internet passaram a ser cruciais na atual realidade.

Para fomentar ainda mais essas tendências, conglomerados já computaram aumentos de produtividade de mão de obra e de ganhos financeiros dentro dos contextos não-presenciais. Muitos decidiram, antes mesmo do fim da pandemia, não mais retornar colaboradores ao status indoor. Em paralelo, mentores, recrutadores e especialistas em recursos humanos passaram a investir em treinamentos e estratégias corporativas para o fortalecimento da inteligência emocional e da reconfiguração de mentes, o tal mindset.

Com tudo isso, certezas acerca do mundo virtual mais presente em nossas vidas também insuflam incertezas quanto a imprevistos, desvantagens e fluidez de contratações de pessoal e, consequentemente, de renda. Todos precisaremos estar prontos para desafios e obstáculos que surgirão. Uma primeira sacada diante do que fazer a partir de então está se refletindo na prática: o apelo ao empreendedorismo, tanto para buscar oportunidades abertas pelos novos horizontes quanto para reencontrar vaga de emprego ou mesmo para tapar a lacuna de uma empregabilidade perdida.

De fato, não são de todo surpreendentes os fenômenos apregoados no momento atual diante da dispersão dos trabalhadores mobilizados. Há muito se aventa a perspectiva de fluidez do mercado de trabalho, no rumo de larga substituição de postos ocupados em empresas por contratos com companhias terceirizadas e atendimento de demandas por parceiros de negócios e por freelancers. Mas a coisa toda está tomando um corpo bem mais robusto e está a cobrar readequações individuais, coletivas e culturais.

O home office generalizado pelo isolamento social foi só o começo. Nossa conectada nova vida está sendo traçada com adoção acelerada de serviços sem contato, com menos uso de dinheiro em espécie em transações, com explosão dos ramos de automação residencial, com armazenamento de dados em nuvem, com telemedicina, com cuidados robóticos, com farta inteligência artificial, com educação à distância e com inúmeras outras soluções para o gerenciamento remoto de ativos, ideias e interfaces.

Nessa toada, espero ver cidades inteligentes e reorganizações totais em cadeias de suprimentos, utilizando ferramentas extraordinárias como as polivalentes impressoras 3D e os audazes drones. Enquanto mais e mais empresas adaptam rapidamente os seus times e gestores antes céticos se convertem em entusiastas do trabalho remoto mesmo no cenário pós-pandemia, outras tecnologias virão e novos debates surgirão para tratar dos direitos do trabalhador e segurança do trabalho. Entregador de comida por aplicativo e professor de ginástica por videoconferência são exemplos.

Por fim, a saúde da sociedade continuará exigindo mais investimentos em proteção, imunidade e tratamentos e o equilíbrio entre vida profissional e pessoal será, por sua vez, tarefa para terapeutas, influenciadores digitais, orientadores de carreiras e personalidades inspiradas e inspiradoras. Quem viver, verá esse novo mundo para se trabalhar, prosperar ou só sobreviver.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.