Blog do Deco Bancillon

Ondas de desinformação online disseminam a ignorância e desafiam a democracia

Teorias da conspiração, Fake News e variados boatos despejados nas redes
sociais podem provocar danos graves na saúde, na política e na segurança

SÍLVIO RIBAS | BRASÍLIA

NÃO! O beatle Paul McCartney NÃO morreu num acidente de carro em 1966 e foi trocado por um sósia. A missão que levou o homem à lua em 1969 NÃO foi uma farsa filmada num deserto por Stanley Kubrick. O rei do rock, Elvis Presley, NÃO forjou a própria morte em 1977 para continuar usufruindo da fortuna no anonimato. Quase sempre populares, os boatos que redundam em mentiras líquidas e certas são uma praga antiga, mas que ganharam força ainda maior nesses tempos atuais de absolutismo digital e exuberância irracional da chamada economia da atenção ou vigilância.

As hordas engajadas que defendem cegamente terraplanismo, resistência à vacinação e todo tipo de teoria da conspiração provocam hoje conflitos tanto no meio offline quanto online, exalando sintomas de uma complexa e grave doença mental coletiva assentada nos algoritmos da interatividade na internet. Como descreve o documentário O Dilema das Redes (Netflix), emergem das redes sociais fatores para preocupações com a saúde mental dos jovens, a propagação da ignorância, a eleição de governos autocráticos, crises existenciais e a guerra civil entre bolhas polarizadas da sociedade.

Verdades fabricadas, notícias falsas e fofocas espetaculosas fazem parte de um fenômeno recorrente cujas razões misturam psicologia das massas com ingenuidade de indivíduos e com as más intenções de seus fabricantes e propagadores. Mesmo superando até mesmo a criatividade das obras de ficção, histórias difundidas para desafiar a razão e o senso comum ganham hoje incomparável espaço nas mídias e mentes, ensejam numerosos grupos de seguidores e até ousam desafiar instituições políticas e a ordem vigente.

É especificamente na forma de teoria da conspiração que as Fake News atingem seu perigoso auge. São muitas teorias tóxicas circulando hoje no cyberespaço, que se tornou o terreno fértil para elas e para as muitas conspirações por trás dessas teorias. A segunda década deste século foi seriamente marcada pelas ondas de desinformação em meio ao crescente oceano de informações e pela construção de discursos e contranarrativas a fatos verificáveis e comezinhas conquistas da observação científica. Por que tudo isso afinal? No distópico 2020, ano em que o mundo foi fortemente impactado pela Covid-19, fazemos essa pergunta com angústia extra.

Enquanto o mundo como conhecemos se despedaçava sob força do maldito vírus e os ditames sanitários do isolamento social para conter a pandemia, Fake News e teorias da conspiração grassavam na cola de novas temáticas e públicos. Como já vinha ocorrendo antes, blogueiros e influenciadores ignoraram advertências de autoridades e relatos do jornalismo profissional para tocar suas próprias investigações, de maneira precária ou meramente especulativa. A fé em “verdades privativas” se sobrepôs à “mentira oficial”.

Fotos, suposições, comentários nas redes sociais, opiniões de qualquer nome alternativo já eram suficientes para contrapor dados calcados em testemunhas reais, laudos técnicos e evidências concretas. Conclusões com base em posturas desafiadoras e forjadas em “raciocínios” sem respaldo lógico foram e têm sido amplamente despejadas nas mídias sociais. A luta de “experts” contra cientistas e médicos envolvidos com o coronavírus não deu resultado glorioso. Mas revelam como líderes inescrupulosos usam da fragilidade psicológica e da manipulação própria das redes para conquistar.

O neurocientista brasileiro Miguel Nicoledis, radicado nos Estados Unidos, explica que os humanos são máquinas de criar universos graças à habilidade de fazer abstrações. As bolhas da internet são comunidades que cultivam abstrações mentais contínuas compartilhadas como vírus informacionais. Os cérebros de milhões se sincronizam quase que automaticamente graças a uma fragilidade biológica que faz com que crenças formem universos à parte. Vítimas de malucos ou mal-intencionados, as pessoas simplesmente acreditam ali em qualquer teoria da conspiração sem a menor lógica.

Viés de confirmação

De fato, a grande arapuca está mesmo no nosso cérebro, que é programado para absorver notícias falsas. Os cientistas dizem que a tendência cerebral do ser humano é aceitar facilmente informações que confirmem crenças ou opiniões pré-existentes e repelir ou ignorar as que as desafiam. A inclinação natural é conhecida como viés de confirmação, que tornam Fake News tão apelativas e mais contagiantes que informações verdadeiras. É o famoso engana que eu gosto. Distinguir entre a realidade e a fantasia não é nada fácil nesse meio digitalizado, ainda mais agora com filtros e deep fakes.

Durante a infância, os pais costumam incentivar os filhos a acreditar em fatos que nem sempre são verdadeiros para que eles possam conviver por O necessário pensamento crítico provoca questionamentos que levam ao desconforto psicológico. É por isso que as notícias falsas atingem um maior número de pessoas e se espalham muito mais rápido do que notícias precisas. O cidadão comum não sabe distinguir bom jornalismo de notícias falsas e no mundo onde fatos estão sob ataque, fontes credenciadas se mostram mais cruciais que nunca. Falta hoje saudável debate democrático e boa interação social para nos curar do miserável arregimentação tribal.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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