Blog do Deco Bancillon

O vertiginoso progresso chinês não deve ser creditado ao comunismo, mas ao confucionismo

Apesar da emergente guerra fria entre China e Estados Unidos, por razões apenas comerciais, a comparação do gigante asiático com a extinta União Soviética é improcedente. O que move a segunda economia do planeta é uma filosofia milenar cultuada pelo seu povo

SÍLVIO RIBAS | BRASÍLIA

A pandemia da Covid-19 derrubou a economia mundial em rapidez e profundidade jamais antes vistas na história. E é na China, justamente onde a crise foi deflagrada com o primeiro surto da doença, que a retomada se deu antes de todos. Esse sucesso da locomotiva do planeta, dentre tantos, não advém do seu peculiar capitalismo de Estado. Ela voltou logo aos trilhos devido à coesão e ao rumo que a definem como país e que faltam ao Brasil.

Mediante seu autointitulado “centralismo democrático”, o gigante asiático planeja o futuro com incomparável rigor, mirando horizontes de ao menos cinco anos, enquanto exibe eficazes reações para situações inesperadas. Há muitos que não enxergam nesse perfil mérito do chamado “socialismo de características chinesas”. Para eles, o diferencial está em traços culturais próprios de civilização milenar, como perspectivas largas e espírito coletivo.

A obsessão pela estratégia e pela visão de longo prazo expressam não só o comunismo, organização política calçada no todo poderoso partido único e inaugurada no país há 70 anos. Essa mentalidade tem raízes bem profundas e antigas: o confucionismo, sistema filosófico do sábio Confúcio cultivado pelos chineses há quase 2,6 mil anos e que abrange ética social e modo de vida, para dar até aspecto moral ao apoio a agentes de governo.

Trata-se do exercício em larga escala da paciência – a segunda coragem na definição de Franz Kafka. Em vez do imediatista impulso ocidental e seus efeitos deletérios, o país mais populoso do mundo descreve ordeira e longa marcha ao progresso. Curiosamente, esse mesmo caminhar tem acelerado nos últimos anos vertiginosamente, assustando ou extasiando as nações. Essa espera paciente e a velocidade crescente, juntas, fazem milagres.

Será tudo fruto do pragmatismo resumido na antológica frase “não importa a cor do gato, contanto que ele cace o rato”, dita pelo líder Deng Xiaoping, o modernizador chinês, em 1978? Em boa parte, sim, pois ficou provado que foco em eficiência e em resultados tem efeito revolucionário. A China passou do absolutismo ideológico para a assertividade dos negócios, tirando dos mercados, da ciência e da gestão pública a saída eficaz para vários obstáculos. Mas também não é só isso. Vejamos a seguir.

O “lugar do centro do mundo”, significado de China em mandarim, sugere a origem da verve autocentrada do país, definidora de sua cosmovisão. O Estado policial, por sua vez, acentua elos entre negócios e governo. O partido comunista, com mais de 80 milhões de membros, indica seus representantes em empresas a partir de determinado porte, incluindo as estrangeiras. Se antes a coesão e o rumo enfatizavam o comércio internacional, agora eles privilegiam a dominância digital.

Quando o presidente americano Richard Nixon visitou a Pequim em 1972, aproximando a China dos Estados Unidos para dividir o mundo comunista, não imaginava que essa parceria levaria à emergência da segunda maior economia do mundo, a caminho da liderança. Em 1816, o imperador francês Napoleão Bonaparte profetizou: “Deixem o dragão dormir porque, quando ela acordar, o mundo inteiro tremerá!”. Sim, o gigante já acordou.

A China foi menos afetada do que o esperado pela guerra de tarifas imposta pelos Estados Unidos. A resiliência se repete na pandemia, com expansão econômica de ao menos 1% em 2020, enquanto a retração de um e até dois dígitos se generaliza no mundo desenvolvido ou não. O objetivo nacional, erguido sobre o adágio “prosperar é glorioso”, junta nacionalismo, louvor à riqueza e repulsa à fome pregressa. Eis a harmonia de vermelho e dourado.

Tabuleiro global

Uma das formas de entender a maneira chinesa de reagir aos desafios globais e como o aparelho político de Pequim atua pode ser resumido no milenar jogo de tabuleiro Go, também chamado de Weiqi ou Baduk. Trata-se de uma competição estratégica e territorial de soma zero na qual dois jogadores posicionam alternadamente pedras pretas e brancas. Nascido há 2,5 mil anos na China imperial, o Go, tal qual o xadrez, testa as capacidades analíticas dos jogadores, com espaço especial para a intuição.

A diferença maior e que explica a tática chinesa em situações concretas hoje é que nem sempre o caráter ofensivo faz o vencedor. Um jogador pode com as suas peças ir cercando as do rival até que, capturadas, são removidas do tabuleiro como prisioneiras. Os dois jogadores geralmente iniciam a partida no tabuleiro vazio marcando áreas que pretendem converter em território. É assim que está sendo traçado e ocupado pela China o futuro que almeja.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.