Blog do Deco Bancillon

Maia acusa Guedes de blindar secretários e decreta: “Foi encerrada a interlocução”

Em política, as palavras têm peso. Mas é o conjunto das ações que fala mais alto.

Em política, as palavras têm peso. Mas é o conjunto das ações que fala mais alto.

Tome como exemplo a dura declaração proferida na noite desta quinta-feira (3/09) pelo presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ).

Maia, como representante máximo dos deputados, havia recebido das mãos do ministro da Secretaria de Governo, Luiz Eduardo Ramos, o projeto de reforma administrativa proposto pelo governo. Com uma medida econômica de tamanha importância, era de se esperar que Guedes participasse da solenidade de entrega do texto ao Congresso.

Assim, os repórteres da Globonews questionaram a ausência de Guedes no encontro, ao que Maia disparou: “Eu não tenho conversado com o ministro Paulo Guedes. Ele tem proibido a equipe econômica de conversar comigo. Ontem, a gente tinha um almoço com o Esteves [Colnago, assessor especial] e com o secretário do Tesouro [Bruno Funchal] para tratar do Plano Mansueto, e os secretários foram proibidos de ir à reunião”, respondeu.

O presidente da Câmara ainda emendou: “Decidi que a relação da presidência da Câmara será com o ministro Ramos, e o ministro Ramos conversa com a equipe econômica, para não criar constrangimento mais para ninguém”, acrescentou.

A imprensa, atônita, questionou se a fala de Maia significa o fim das relações do presidente da Câmara com o ministro da Economia. Ele não titubeou: “Foi encerrada a interlocução.”

Para muita gente, o rompimento público entre Maia e Guedes pode significar uma nova crise na relação entre o governo e o Congresso Nacional.

Mas a verdade é que essa relação já havia azedado há tempos.

Começou ainda nos primeiros meses de governo, quando Maia acusou Guedes de tomar para si o protagonismo da aprovação da reforma da Previdência, medida cuja aprovação política já vinha sendo construída desde a gestão Michel Temer.

Outros estranhamentos se sucederam ao episódio, quando Câmara e equipe econômica bateram cabeça a respeito da proposta do Orçamento impositivo e no socorro aos estados.

À época, auxiliares de Guedes acusavam o presidente da Câmara de agir como líder do DEM com o objetivo deliberado de ajudar eleitoralmente aliados políticos nos municípios.

A turma pró-Maia via na provocação um Guedes ressentido pela perda de holofotes em temas econômicos, tema em que o presidente da Câmara tem predileção.

Assim, em abril, ainda no início da pandemia de coronavírus, a relação entre ambos cessou.

A gota d’água foi uma entrevista de Maia à Veja, onde o deputado acusou o ministro da Economia de passar informações falsas à população a respeito da crise política entre estados e governo federal acerca das ações de enfrentamento à pandemia. “Ele não é sério”, disse Maia a respeito de Guedes, emendando que “se (Guedes) fosse sério, não tentaria misturar a cabeça das pessoas”.

Assim, por mais que as frases duras de agora soem como um rompimento recente e inédito na relação entre Guedes e Maia, é importante sempre reforçar que, em política, ações falam mais alto que palavras.

Dito em outras palavras: não há como romper uma relação que já inexistia.

E segue o jogo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.