Blog do Deco Bancillon

Está chegando a hora da verdade para a economia brasileira: sem reformas, restará o caos

Paulo Guedes renova a pregação por privatizações e austeridade fiscal ilustrada pela metáfora da agonizante baleia cravada de arpões

SÍLVIO RIBAS | BRASÍLIA

Uma inocente busca na internet esses dias me levou a uma antiga matéria do saudoso Jornal do Brasil, de 19 de julho 1989, durante a cobertura da primeira campanha presidencial pós-ditadura, sobre os planos de Paulo Guedes para um eventual governo do seu então assessorado, o presidenciável Afif Domingos (PL).

O texto informa que o economista fluminense pedia carta branca, caso virasse ministro, para privatizar estatais deficitárias e ineficientes, sendo essa, na sua opinião, a única saída para contornar a gravíssima crise fiscal da época. Ele ainda acusava o governo Sarney de estar escondendo a hiperinflação, o que acabou se revelando meses depois.

Hoje, 31 anos depois, Guedes está à frente da política econômica e segue coerente com a fé liberal, pedindo ao país que tenha a coragem de vender empresas gigantes e gastadoras para ajudar o Estado a sustar tragédias macroeconômicas à vista. Numa metáfora que gosta de fazer, a do Brasil como agonizante baleia cravada de arpões, ele grita: “vamos salvá-la!”

Esse enorme mamífero marinho ferido e arpoado várias vezes ao longo de décadas é a economia nacional, cuja resiliência, própria do povo brasileiro, sempre impressionou o mundo. Mas talvez esteja próxima do colapso após tanto abuso cometido pelos tripulantes do baleeiro chamado governos. Com chagas abertas e cicatrizes de ataques do passado, a exuberante baleia Brasil tem dificuldade de reagir às persistentes maldades dos marinheiros.

Se associarmos esse retrato ao romance Moby Dick, do americano Herman Melville, teremos à frente da economia um Ahab com obsessão inversa à do herói da ficção. Parecido com líder do Greenpeace, ele quer proteger e não caçar a baleia. Sangrando e à beira da morte, ela precisa se livrar logo das gorduras na folha de pessoal do Estado, dos programas sociais mal focados e dos muitos ralos estatais como Eletrobrás e Correios.

A verdade dos números

A situação da economia brasileira não pode ser vista pelo prisma ideológico. Depois da Reforma da Previdência, precisamos de outras para garantir a retomada do crescimento econômico sustentável, com estabilidade fiscal e mais confiança dos agentes econômicos. Cabe ainda nesse esforço o plano para simplificar a carga tributária, elevar a produtividade da mão-de-obra, cortar subsídios, abrir o país ao mercado externo e melhorar infraestrutura.

Após tirado o arpão da reforma da Previdência, aprovada em 2019, falta estancar a sangria de privilégios mantida pelo corporativismo por meio da inadiável reforma administrativa. O controle dos gastos públicos tem de ser aprofundado e ir além da discussão sobre manter o teto aprovado em 2016. Concessões e privatizações também ajudam a conter o desespero da dívida pública em 100% do Produto Interno Bruto (PIB), pior nível dos emergentes.

Manter a baleia Brasil viva depende da racionalização do gasto público e impulsionar o setor privado, facilitando a vida do empreendedor. Seria bom o Congresso considerar a proposta para reagir ao “estado de emergência fiscal”, que Guedes batizou de “shutdown à brasileira”, numa referência ao que ocorre nos Estados Unidos quando há impasse no Congresso sobre o financiamento da máquina pública. Ela permitiria corte de 25% na jornada e no salário do funcionalismo. Se a baleia morrer, todos nós afogaremos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.