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Entenda por que o Ibovespa bate recordes de alta e a economia não para de cair

Apesar da recessão história que assola o Brasil, o Ibovespa, principal indicador da bolsa de valores, segue rumo à “escada para o paraíso” e deve alcançar “em breve” os 120 mil pontos, conforme projetou o banco Itaú. A pergunta é: essa escalada é sustentável?

DECO BANCILLON | BRASÍLIA

Você acompanha as notícias da economia? Então já deve ter reparado que, nas últimas semanas, o Ibovespa, principal índice da Bolsa brasileira, ultrapassou os 100 mil pontos e atingiu o maior patamar em quatro meses. A escalada do índice culminou em uma onda de otimismo nos mercados financeiros, com analistas projetando que o Ibovespa (IBOV) esteja “subindo a escada para o paraíso” rumo a sua máxima histórica em 120 mil pontos, conforme relatório do Itaú BBA publicado nesta terça-feira (21/07).

É uma excelente notícia, é claro, mas cabe lembrar que o sentimento que se espalhava nos mercados até bem pouco tempo era outro: de pessimismo.

Em março, quando o Brasil começou a registrar os primeiros casos de coronavírus, a bolsa despencava. Chegou a marcar 63 mil pontos – uma diferença de 62% para o patamar atual. Ok, é verdade que a bolsa brasileira é um reflexo não só sobre o que acontece no Brasil, mas também em outros mercados. E, recentemente, o bom humor com uma possível vacina contra o coronavírus tem animado investidores e feito muita gente crer que, muito em breve, o fantasma dessa doença que já matou quase 70 mil brasileiros possa finalmente chegar ao fim.

Mas, mesmo com o humor lá fora, um fato chama a atenção: enquanto a bolsa de valores sobe sem parar no Brasil, o PIB, que é a soma de tudo o que é produzido pelo país pelas famílias, trabalhadores e empresas, não para de cair. Para 2020, a previsão é que a economia encolha 6,5% — o que pode configurar o pior resultado dos últimos 100 anos. Então, a pergunta que fica é: se a bolsa reflete o resultado das empresas, e se essas empresas dependem da economia real para venderem seus produtos e serviços, por que a bolsa sobe sem parar e o PIB não para de cair?

Como já era esperado, a crise do coronavírus provocou estragos na economia. Lojas fechadas, empresas falindo, aumento recorde no desemprego. O governo tentou agir concedendo recursos via auxílio emergencial para que as pessoas que não podiam ficar sem trabalhar, especialmente os trabalhadores informais, não ficassem desassistidos. Outra frente de batalha foram as medidas de concessão de crédito a empresas, via programas para pagar a folha salarial ou o Pronampe, que tem excelentes taxas de juros e bom prazo de carência.

Mas isso não evitou que a economia desabasse. Os especialistas acreditam que o fundo do poço tenha sido abril, quando o PIB pode ter encolhido mais de 10%. Digo pode porque ainda não se sabe o número real do tombo. A medida mais usada para traçar esse cenário pessimista é um número divulgado pelo Banco Central, que calcula o chamado IBC-BR – que é considerado pelos economistas como uma espécie de prévia do PIB, que é calculado por outro órgão público, o IBGE. Pois bem, em abril, o IBC-BR caiu 9,73%.

A expectativa desses analistas era que, diante de uma retração tão forte da economia em abril, o mês seguinte, maio, registraria números bem melhores. Por um motivo simples: se o desempenho de abril foi um desastre, qualquer resultado positivo de maio já mostraria uma enorme evolução, pelo fato de que a base de comparação com abril ser favorável. Assim, o consenso entre esses analistas era que o IBC-BR subiria 4,5% em maio.

Infelizmente, no entanto, a realidade que se impôs foi outra: uma alta de apenas 1,31%. E, se a base de comparação com abril, que era o fundo do poço, não foi nada animadora, quando a gente passa a olhar maio contra o mesmo mês de 2019 – quando não havia crise de coronavírus –, o desempenho foi muitas vezes pior: queda de 14,24%.

Para ficar um pouco mais visual essa explicação, deixo aqui uma imagem de um gráfico feito pelo meu amigo André Perfeito, economista-chefe da Necton Investimentos.

Então, o que podemos dizer desses números é que, olhando para a fotografia do Brasil hoje, a constatação é que estamos se não no fundo do poço, mas ainda lá embaixo, nas profundezas da crise, sofrendo para não engolir água. E é justamente por estarmos em uma situação ruim agora que, ao olhar para o longo prazo, o quadro parece ser bem melhor. E é justamente por esse motivo que a bolsa parece se descolar da economia real – embora ela dependa obviamente da economia real para conseguir entregar resultados.

Para melhor compreensão, vale explicar a lógica (as vezes nem tão lógica assim) dos mercados de capitais. Mas fiquemos com a explicação genérica para melhor compreensão.

Pois bem. Tomemos uma ação como um pedaço de uma empresa. Uma ação da Vale, então, corresponde a um direito a ser sócio da mineradora. Ser sócio é estar junto nos bons e nos maus resultados, certo? Então, quando a empresa registra lucro, é natural que ela esteja valorizada, porque mais pessoas vão querer se tornar sócios de uma empresa lucrativa. E isso vai, naturalmente, fazer com que a ação da Vale se valorize. Afinal, se há mais gente querendo comprar essa ação do que vendê-lo, quem está vendendo vai aproveitar para aumentar o preço. A mesma lógica se aplica a uma ação em queda. Ela muitas vezes representa a percepção, pelos investidores, de que aquela empresa não está entregando resultados ou que, no futuro, ela terá problemas à frente.

E é aí que o quadro atual da bolsa subindo e do PIB caindo começa a fazer sentido. Porque, embora o quadro atual para a economia brasileira seja pessimista e nebuloso, quando se olha para o futuro, a percepção que se tem é que a economia voltará a crescer, gerando empregos, possibilitando novos negócios e gerando receitas para todos.

Assim, podemos entender o Ibovespa acima de 100 mil pontos como uma manifestação de otimismo com o futuro. E essa é justamente a principal característica do mercado de ações, onde se precifica hoje os resultados esperados para amanhã.

É claro que essa percepção nem sempre é clara. Basta lembrar que, no início do ano, antes do mundo ter ideia da devastação que o coronavírus faria às economias, o Ibovespa subia acima dos 113 mil pontos – cerca de 10% acima do patamar atual. Mas, à medida que as notícias sobre a letalidade do vírus começaram a ganhar força, os investidores partiram em retirada da bolsa, derrubando o Ibovespa para 63 mil pontos em 23 de março, apenas um mês após o governo anunciar o primeiro caso confirmado de coronavírus no Brasil.

Naquele momento, diante de tantas incertezas sobre o futuro e, sobretudo, até quando as economias iriam afundar, os investidores preferiram buscar abrigo em ativos mais sólidos, como o ouro ou títulos do governo norte-americano, que são considerados um seguro contra crises de grandes proporções. Houve, à época, quem falasse em queda do PIB na ordem de 20% a 30% em 2020 – hoje, o consenso é de uma queda na ordem de 6%.

Por isso é preciso sempre estar atento a esses movimentos, mas nunca tomá-los como certezas absolutas. Da mesma forma que os investidores estavam errados sobre o tamanho do tombo lá atrás, eles podem estar equivocados sobre a intensidade da recuperação adiante.

É como nossas avós diziam. Prudência e caldo de galinha não fazem mal a ninguém.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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