Blog do Deco Bancillon

Debate sobre queimadas na Amazônia ocupa espaço da corrida pelo lucro verde com a floresta

A pressão internacional para enquadrar o Brasil na questão amazônica vai muito além dos aspectos ambiental e climático, sobretudo a rivalidade com o agronegócio do país. A saída é buscar investimentos para preservar o bioma e erguer negócios sustentáveis

SÍLVIO RIBAS | BRASÍLIA

A pandemia ainda não passou, mas os maiores nomes de negócios externos com o país, sobretudo do comércio exterior, ainda se articularam para colocar o governo e exportadores contra a parede na questão ambiental.

Sem meias palavras, cobram ação firme contra o desmatamento e as queimadas da Amazônia e condicionam investimentos aqui e compras de produtos à apresentação de garantias de combate às ações ilegais e de preservação da maior floresta do mundo.

Sabendo da nossa necessidade de retomada das atividades econômicas, os donos do dinheiro aproveitam a chance para questionar sinais controversos emitidos pelo Planalto e lembrar que o consumidor estrangeiro mais afeito aos temas ecológicos já estaria boicotando artigos made in Brazil.

A repulsa ou o protesto no carrinho de compras seria o reflexo de notícias sobre uma eventual aceleração das queimadas e do avanço sem resistência de fazendeiros, mineradores e madeireiros, além de trechos de discursos de autoridades críticos à crítica.

A pressão explícita começou tendo como alvo o vice-presidente Hamilton Mourão, coordenador do Conselho Nacional da Amazônia Legal, e já vinha sendo feita nos bastidores, sobretudo sobre o Ministério da Agricultura. Sempre há a associação fácil do campo como rival da floresta. O fato é que evocar soberania, embora seja algo meritório, não serve mais de contraponto contra a ação coordenada para punir o Brasil por suposto desleixo com a maior reserva de biodiversidade e água doce do planeta.

O que está em jogo é algo prático: a emergência climática. A gigantesca cobertura vegetal no Norte brasileiro serve de contenção para alterações catastróficas dos regimes de ventos e chuvas. Seu encurtamento derrubaria a produção mundial de alimentos, sobretudo aqui mesmo, e tornaria a vida em certos lugares insuportável, seja por calor ou frio excessivos.

O Brasil precisa, de uma vez por todas, superar a armadilha ideológica em torno da questão amazônica. Há exageros dos dois lados e, por isso, melhor seria tratar o tema com pragmatismo, o mesmo esboçado pelos empresários poderosos. Ninguém sairá ganhando com uma escalada de retaliações contra o Brasil. Pelo contrário, o país deve ser visto como espaço de oportunidades para a prosperidade de vários negócios com selo verde.

Está mais do que provado: a floresta amazônica vale mais de pé do que derrubada, para pesquisas com biotecnologia, turismo, captura de carbono e indústrias associadas ao extrativismo sustentável e ao acervo genético. É por essa trilha que desenvolveremos o “inferno verde”, como a região era equivocadamente chamada por governos militares.

Também é preciso evidenciar o fato de que o maior inimigo das árvores hoje não é a produção agrícola, mas, sim, a criação extensiva de gado. Bastaria barrar com todo o rigor possível a pecuária em algumas áreas do país e o problema reduziria à metade.

Por fim, temos de nos organizar de vez, tanto política quanto institucionalmente, para cobrar uma pesada fatura do resto do mundo por conservar aquilo que sempre nos pertenceu, mas que hoje serve a todos os habitantes da Mãe Terra.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.