Blog do Deco Bancillon

De Moro a Mourão: saiba o que esperar das eleições de 2022

Postulantes ao Palácio do Planalto se assanham com Biden, pandemia e crise econômica. Cenário eleitoral também terá novatos como Luciano Huck, que aposta no enfraquecimento político de Bolsonaro

SÍLVIO RIBAS | BRASÍLIA

O recente resultado conturbado das eleições americanas – com a eleição de Joe Biden puxada essencialmente pelos efeitos drásticos e inesperados da pandemia da Covid-19 sobre a maior economia do planeta – interferiu imediatamente no tabuleiro eleitoral brasileiro de 2022. De uma hora para outra, o cenário político ampliou o seu espectro de possibilidades.

Tão logo o rival de Donald Trump se proclamava vitorioso, pré-candidatos do chamado Centro no Brasil já começaram a movimentar as suas peças para marcar posições e antever espaços para as próximas jogadas, em meio a um quadro ainda muito polarizado entre as extremas esquerda e direita.

A suposição de que Bolsonaro pode ser vitimado nas urnas pelos mesmos ventos de mudança que derrubaram o seu maior aliado político e ideológico no mundo animou seus potenciais contentores em 2022, cujas articulações de bastidores em busca de apoio e alianças rapidamente viraram públicas, bem antes da abertura das urnas para os pleitos municipais deste ano. Eles ainda estão de olho no impacto de eventual abismo fiscal no próximo ano.

Luciano Huck é o mais empolgado nessa nova fase de um jogo já antecipado em demasia pelo presidente Bolsonaro em obstinada busca por reeleição desde que chegou ao cargo. O próprio apresentador de tevê, que desistiu de entrar na corrida de 2018, disse ter saído agora da “posição de conforto” para buscar protagonismo. Na última eleição presidencial, foi o centro formado pela ampla coligação de Geraldo Alckmin (PSDB) o principal derrotado, sem conseguir passar de um dígito no percentual de votos.

Corta para 2020. Parece que Huck estava só fingindo de morto e não quer perder tempo. Se reuniu com o ex-ministro Sérgio Moro, adversário mais forte de Bolsonaro no campo da direita, no campo batizado de lavajatista, e com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ). Meses antes, a estrela da Globo também já havia se encontrado com o governador Flávio Dino (PCdoB-MA). Mais recentemente, o paulista deu novos passos na agenda de candidato, mostrando suas ideias a grandes empresários.

Rejeitado por Maia, Moro afirmou que ficaria “desapontado” se o cenário de 2022 fosse de extremos. Ao criticar o “ambiente de polarização”, o ex-juiz admitiu estar em contato com “líderes de centro que buscam construir a alternativa”. Seu conceito centrista é largo, citando como presidenciáveis Huck, Luiz Henrique Mandetta (DEM), João Amôedo (Novo), o governador João Dória (PSDB-SP) e até o vice-presidente Hamilton Mourão (PRTB),

Novo contexto?

Circunstâncias, como derrota de Trump e desempenho ruim de candidatos apoiados por Bolsonaro nas eleições municipais, empolgam os rivais do presidente. Mas ainda há que se avaliar os verdadeiros contornos do atual contexto, diverso de 2018, e o que ocorrerá com a popularidade recorde ganha pelo chefe do Executivo apesar dos efeitos negativos da pandemia. É preciso saber se há alguma fadiga do eleitorado com a radicalização.

Curiosamente, o PT é o maior interessado na dianteira de Bolsonaro nas pesquisas de intenção de voto para 2022 (a recíproca também vale). Também é intrigante que foi justamente o presidente o primeiro a investir no centro, estabelecendo relação pragmática com os partidos do chamado Centrão para formar uma base parlamentar e garantir governabilidade.

Quanto ao canto esquerdo do ringue, o ex-presidente Lula (PT) e o ex-ministro Ciro Gomes (PDT) ainda não avançaram numa aliança de contraponto a todo o resto. Outros lances ainda podem ocorrer, como o governador gaúcho Eduardo Leite (PSDB) ser apresentado como opção a Doria e Marina Silva (Rede) tentar, novamente, figurar como a terceira via.

Apostando na mensagem de renovação política e de uma grande frente anti-Bolsonaro, Huck amplia suas conversas com várias correntes políticas, mas tem evitado ser ainda mais claro sobre o seu futuro político. Ele deu um passo adiante, mas evita dar um segundo para não perder a chance de fazer mais alianças e lucrar com desdobramentos do cenário atual. Muita água vai rolar sobre esta ponte até 2022. Mas o segundo tempo deste jogo já começou e parece mais interessante do que poucos meses atrás.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

All Comments