Blog do Deco Bancillon

Comida high-tech ganha mercado e até batata-frita por impressora 3D será real

Marcas usam tecnologia de ponta para criar alimentos em laboratório e atender a um novo e gigantesco mercado de pessoas que rejeitam o consumo de proteína animal. Só no Brasil, essa demanda é de 30 milhões de consumidores

WLADIMIR D’ANDRADE* | SÃO PAULO

Cinco anos atrás iniciei a segunda-feira vegana. Desde então, minhas semanas começam com a ingestão de zero ingredientes de origem animal: sem carne, sem leite, sem queijo. Uma inovação gastronômica que estimulou a criatividade, transformou a leitura de rótulos em hábito e, principalmente, provocou uma constante reflexão sobre o que eu coloco no meu estômago.

Milhões de pessoas rejeitam o consumo de proteína animal no mundo. No Brasil eram cerca de 30 milhões em 2018, de acordo com pesquisa Ibope. Empreendedores enxergaram a oportunidade e, a partir de tecnologias da química e da biologia, como fermentação e alteração genética, criaram carne, frutos do mar e até ovos a base de plantas, fungos ou algas. Estes são os alimentos sintéticos, produzidos em laboratório.

Os sintéticos se tornaram uma inovação fantástica para pessoas que por questões de saúde ou por opção não comem carne, mas desejam alimentos com gosto e texturas parecidos. A perspectiva do mercado é tão promissora que recentemente até a maior rede de restaurantes fast food do planeta, o McDonald’s, anunciou uma linha vegetariana para 2021. Segundo o banco multinacional britânico Barclays, o mercado global de carne vegetal deve atingir os 140 bilhões de dólares em 2029.

O principal argumento a favor dos alimentos sintéticos vem da questão ambiental. O hambúrguer da Impossible Foods, uma das empresas do ramo, utiliza na sua produção 87% a menos de água, 96% menos terras e emite 89% a menos gases causadores do aquecimento global quando comparado à produção de um hambúrguer a partir do abate animal, argumenta a marca.

A favor dos sintéticos estão ainda a segurança alimentar e a otimização da cadeia logística. Ora, se os alimentos são produzidos em laboratório eles estão menos expostos a intempéries climáticas que mexem no volume de produção agrícola e no preço dos alimentos. Também, no futuro, o avanço tecnológico pode extinguir problemas de transporte, armazenamento e distribuição ao permitir que a comida se materialize no prato por meio de uma impressora 3D. Imagine que incrível imprimir batatas-fritas crocantes por fora e macias por dentro prontas para o consumo!

É claro que a adoção em massa dos sintéticos deixa muita gente descontente. Eles concorrem diretamente com a tradicional indústria alimentícia. Além de teses de que o corpo humano exige um mínimo de proteína animal, o impacto na vida de pequenos produtores é um dos argumentos dos que torcem o nariz para a comida “high-tech”. A inovação tem essa característica: ela transforma mercados e traz avanços, mas costuma ser cruel com quem foi substituído.

Com o tempo vamos enxergar com clareza as consequências. Fato é que cidadãos como eu, que por livre iniciativa decidiram reduzir ou abolir alimentos de origem animal, têm hoje alternativas de qualidade. Tenho acesso a uma variedade de hambúrguer, linguiça e queijo veganos com sabor de hambúrguer, com sabor linguiça e com sabor queijo de verdade. Obrigado aos inovadores da alimentação.

*Jornalista, empreendedor e especialista em inovação.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.