Blog do Deco Bancillon

China dá a largada para o maior bloco comercial do mundo, com 30% do PIB global

Sem alarde, 15 países da Ásia e da Oceania fecham acordo de livre comércio para consagrar o domínio do Pacífico no século 21. O Ocidente conseguirá virar o jogo?

SÍLVIO RIBAS | BRASÍLIA

O retrato não é novo, mas parece estar ficando cada vez mais nítido. Se este século tivesse um rosto, ele seria o de um jovem da raça amarela, com olhos puxados e cabelos lisos pretos (ou pintados). Em meio a dias de assustadora pandemia da Covid-19, da intrigante invasão cultural coreana do chamado K-Pop e da dependência mundial de suprimentos da China, descortina-se no Oriente um futuro de poder econômico e político a desafiar o Ocidente.

A prova cabal disso veio no domingo (15/11), quando, sem alarde, ministros de 15 países de Ásia e Oceania oficializaram o maior acordo comercial já visto, alcançando 70% de toda a produção industrial e 30% da economia mundial. Com 2,1 bilhões de consumidores, o bloco liderado por China, Coreia do Sul e Japão abrange Austrália, Brunei, Camboja, Cingapura, Filipinas, Indonésia, Laos, Malásia, Mianmar, Nova Zelândia, Tailândia e Vietnã.

Na quarta-feira (11), primeiro dia do encontro ministerial em Hanói, os membros da Regional Comprehensive Economic Partnership (RCEP) concluíram oito anos de duras negociações para poder assinar o acordo, deixando em aberto a eventual adesão da relutante Índia e seus 1,3 bilhão de habitantes. Nova Délhi deixou a RCEP em novembro de 2019, em razão, sobretudo, de desconforto com o avanço das importações da Ásia, a maior parte da China, com impacto sobre a indústria doméstica e até a agricultura.

Depois do vigoroso renascimento japonês no pós-guerra, da agressividade exportadora dos Tigres Asiáticos e da contínua e vertiginosa ascensão chinesa, consolida-se nesse acordo um polo global de produção e consumo sem paralelo (ou freio) na história, capaz de moldar doravante o comércio internacional e toda a geopolítica. Nele, a China, por exemplo, estabelecerá a primeira estrutura de livre comércio com seus maiores parceiros na região, Japão e Coreia do Sul, possibilitando sinergias mais profundas.

A RCEP (Parceria Regional Econômica Abrangente, em português) prevê eliminar, ao longo de 20 anos, uma série de tarifas de importações e regular questões em 20 áreas, como vendas pela internet, fluxo internacional de dados, telecomunicações, propriedade intelectual e serviços financeiros. A imprensa chinesa exaltou a proposta que dá a Pequim papel proeminente na elaboração das regras comerciais da região e inaugura frentes para as exportações do segundo maior PIB do planeta.

Ásia-Pacífico isola os EUA

Não é, pois, exagero dizer que o RCEP tem potencial para redesenhar as correlações de força econômica e política no mundo já a partir de 2021. O acordo que vinha sendo negociado desde 2012 tinha desenho bem distinto, liderado pelos Estados Unidos e buscando isolar a China. O então Trans-Pacific Partnershipn (TPP) proposto pelo governo Barack Obama acabou sendo abandonado pelo sucessor, Donald Trump, e ironicamente servindo aos interesses chineses. Retomado pelo então premiê japonês Shinzo Abe, o novo arranjo colocou a China no lugar dos EUA e ainda mirou a Índia para um momento posterior. Que virada! Que vacilo estratégico de Washington!

Soa até engraçado assistir os EUA aparentemente perdendo o último bonde de oportunidades comerciais na região da Ásia-Pacífico, pois foi justamente a mais poderosa Nação do mundo a primeira a antever esse cenário. Na virada para o século 20, John Hay (1838-1905), secretário americano de Estado, profetizou: “o Pacífico é o oceano do futuro”. Na época, ele anunciou “portas abertas” para a China, visando reduzir a forte influência de Europa e Japão na região. Cem anos depois, a promessa de opulência oriental se confirmou.

O século 20 seguiu liderado pelo Atlântico, em virtude das ligações culturais e política entre seus dois lados. Mas nas últimas décadas surgiam sinais de supremacia do Pacífico graças ao impulso de sua histórica força comercial. Começou com o Japão, depois a China e, mais recentemente, Índia e Sudeste Asiático. Até 2050, o pêndulo virará de vez para o Oriente, com a Ásia respondendo por 60% da população do mundo e metade do seu PIB.

E o Brasil nessa?

Ao juntar os três exportadores mais dinâmicos do Leste Asiático com os 10 integrantes da Associação das Nações do Sudeste Asiático, além dos dois maiores mercados oceânicos, o RCEP se apresenta também como o maior bloco importador de commodities agrícolas e minerais e, por tabela, mais promissor cliente do Brasil nas próximas décadas.

É por essa e outras razões, o Itamaraty precisa acompanhar de perto o processo, sobretudo os seus impactos para o agronegócio. Sabe-se que qualquer progresso na Ásia significa proporcional aumento das exportações de grãos e de proteína animal para o outro lado do mundo. Mas, por enquanto, o país não está “nem como mero observador” do acordo Ásia-Pacífico. Quem sabe a União Europeia se sinta forçada a retomar o andamento do bloco com o Mercosul, costurado após 20 anos de conversas e parado desde o ano passado por pressões dos seus agricultores. Logo não restará muito mais espaço para integração comercial.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.