Blog do Deco Bancillon

Brasil deve ganhar com Biden, mesmo se houver atritos entre seus governos

Presidente americano eleito monta equipe de governo engajada na promoção da diversidade cultural e do resgate do abalado multilateralismo

SÍLVIO RIBAS | BRASÍLIA

A vitória do democrata Joe Biden na conturbada corrida presidencial americana de 2020, por uma margem muito apertada na votação popular, levou imediatamente a uma guinada nas expectativas de ações internas e externas do governo dos Estados Unidos a partir de 2021, que terão importantes reflexos mundiais.

O recente anúncio dos nomes de sua equipe de governo comprova que haverá um resgate das posturas e bandeiras da administração de Barack Obama, da qual Biden foi vice por oito anos, mas com inflexões acentuadas nos temas diversidade social, sobretudo para o plano interno, e resgate do combalido multilateralismo nas relações internacionais.

Se não fosse a tragédia sanitária gerada pela pandemia da Covid-19 e as suas consequências sociais e econômicas no país mais rico e poderoso do mundo, o período de quatro anos do republicano Donald Trump teria se tornado o dobro, deixando mais distante e desidratada a agenda dos oito anos anteriores. A esperada vitória do polêmico magnata, ainda mais larga que a obtida em 2016, não ocorreu e o cenário global tende a mudar muito.

É verdade que a América segue dividida em dois grandes polos políticos, a exemplo do que também se vê no Brasil e se evidencia nas redes sociais. Mas é importante deixar bem claro qual é o jogo nacional e global que está sendo jogado aqui e lá. Enquanto análises correm sempre o risco de serem ofuscadas pela leitura sob o prisma ideológico, proponho a percepção mais lógica e pragmática do que ocorre.

Neste sentido, o saldo do esperado embate entre os governos Biden e Bolsonaro em razão de suas diferenças e do alinhamento total do presidente brasileiro com o americano derrotado na tentativa de reeleição pode ser positivo. Com temor de perdas para as exportações e a reputação do Brasil, o fato é que a volta dos democratas ao poder na maior economia do mundo sinaliza mais negócios, mais fluxo comercial e menos tensões geopolíticas, como revelam os indicadores das bolsas de valores, também em alta pela perspectiva de imunização em massa contra a Covid-19.

Nova ordem mundial

Nada mais na política mundial se orienta pela lógica de esquerda versus direita nas suas definições clássicas, muito menos de Ocidente (mundo livre e capitalista) contra Oriente (comunismo e fundamentalismo religioso). Desde a queda do Muro de Berlim, em 1989, essa bipolaridade foi dando lugar a uma nova (des)ordem mundial, um rearranjo bem mais complexo e repleto de contradições aparentemente inexplicáveis.

O verdadeiro confronto gestado nesse processo pós-fim da União Soviética e posteriormente cristalizado com o fenômeno das massas digitais é o embate entre os apoiadores da globalização e os ressentidos com essa mesma globalização. O cenário advindo da vitória americana na Guerra Fria representou o desaparecimento das fronteiras para os capitais e as mercadorias e, em alguma medida, para o trânsito das pessoas e das ideias.

A América ganhou e perdeu com a aceleração do comércio multilateral e as nações em desenvolvimento que abraçaram as oportunidades surgidas desde então ganharam bem mais. O período de 20 anos entre 1990 e 2010 representou a maior incorporação de renda e de consumo da história, tirando bilhões de cidadãos da miséria, sobretudo na Ásia. Em segundo plano, esse espraiamento de progresso econômico veio para a América Latina e, mais recentemente, para a África.

Nesse embalo de abertura, os centros financeiros de Nova York e Londres nadaram em dinheiro globalizado e as fábricas de todo o mundo foram se mudando para a China, que se tornou a segunda maior economia do planeta fabricando quase de tudo. Essa mudança gerou uma nova geografia de ressentimentos e de paixões nacionalistas captada e impulsionada pela mídia interativa, convertendo-se na sequência em novos e inesperados movimentos políticos, distintos de tudo o que era entendido até então.

A reação emocional ao desemprego estrutural, ao caldeirão cultural e étnico e à substituição de importações, boa parte impulsionada pela quarta revolução industrial, se traduziu em líderes emergentes e fortes revesses de acordos e pactos pró-globalização. Além da eleição do republicano Donald Trump em 2016, outro grande exemplo desse estado de coisas foi o plebiscito que colocou o Reino Unido fora da União Europeia (UE) naquele mesmo ano, o tal complicado Brexit.

Como a esquerda menos sectária dos Estados Unidos (Partido Democrata), do Brasil (PSDB) e de outros países ocidentais abraçaram a agenda comercial liberalizante da globalização e obtiveram dividendos eleitorais da onda de prosperidade globalizada, restou à direita, particularmente a nacionalista, assumir bandeiras de trabalhadores marginalizados e dos esquecidos pelo novo contexto produtivo, tecnológico e cultural globalista e, assim, ascender como alternativa de poder.

O desafio agora para essa esquerda conectada aos capitais internacionais (produtivos e especulativos) é justamente dar uma resposta mais abrangente, estruturada e perene aos desalojados pelas mudanças profundas, em parte frustrados com as falhas e inconsistências dos seus escolhidos mais recentes.

Razões nativistas

A questão de identidade nacional e dos valores mais conservadores voltaram ao topo do debate político e institucional em razão das bagunças geradas pelo fluxo migratório e do choque com visões mais fluidas e generalizadoras sobre nacionalidade, religião, sexualidade e outras coisas da vida dos cidadãos locais.

A multilateralidade construída logo após o término da Segunda Guerra Mundial a partir das Nações Unidas e potencializada pelo ao longo do período seguinte à queda do império vermelho de Moscou, com avanços nos blocos econômicos e políticos, a exemplo da UE, começou então a sofrer duros golpes e recuos nas urnas após gritaria na internet e nas ruas.

Mas eis que chegamos às questões a remanescer a tudo. É possível impedir a globalização e dar espaço ao protecionismo comercial, o mesmo que leva a conflitos bélicos, a menos crescimento econômico e a mais desigualdade social? As sociedades conseguem ser tolerantes o bastante para abrigar pacificamente todas as visões de mundo? Um choque de civilizações – judaico-cristão e islâmica extremista – trará um inevitável desfecho trágico? Teremos então de abdicar de parte de nossa liberdade civil própria das democracias ocidentais para controlar ou isolar o indivíduo radicalizado?

Bom, está ainda mais evidente que a História com H maiúsculo não acabou, como vaticinara apressadamente o filósofo americano Francis Fukuyana. Ela seguirá desafiando a humanidade, moldando seus pensamentos de nações e eras e influindo sobre compreensões individuais sobre si e sobre o outro até que, quem sabe um dia, se chegue ao consenso efetivamente universal em torno de progresso, liberdade e respeito às diferenças.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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