Blog do Deco Bancillon

Bolsonaro lidera com folga as pesquisas para 2022 e o nome de seu rival segue uma incógnita

As próximas eleições presidenciais parecem distantes, mas estão no topo da agenda da política nacional. Após a crescente polarização entre os extremos de esquerda e de direita nos últimos anos, as forças do centro ainda não conseguem forjar alternativas

ERRAMOS: inicialmente, esse texto havia sido publicado sem uma conexão direta com o título acima. O erro foi reparado às 09:25 de 20/11/20.

SÍLVIO RIBAS E DECO BANCILLON| BRASÍLIA

As eleições municipais demonstraram que o Brasil segue um país rachado, sem uma liderança única capaz de unir as mais relevantes forças políticas em torno de um conjunto de bandeiras que aglutine a sociedade. O presidente Jair Bolsonaro (sem partido), que no início da pandemia havia prometido não entrar na eleição, decidiu mudar de ideia e patrocinar candidatos à direita e que cultuvam costumes conservadores, de olho nas coligações que possam lhe trazer palanque na sua tentativa de reeleição em 2022. Mas, diante do atraso em se decidir e também das polêmicas enfrentadas pelo presidente no combate à pandemia, o capital político de Bolsonaro, que até então parecia inabalável, acabou mostrando-se limitado.

Não quer dizer que Bolsonaro esteja liquidado, ou que ele tenha perdido seu séquito de adoradores. Muito pelo contrário: entre as hordas bolsonaristas, a admiração ao presidente segue inabalável, tal qual acontece nos EUA, onde milhões de norte-americanos conferiram a Donald Trump o maior número de votos que um presidente em exercício já recebeu na história dos EUA. Embora não tenha sido reeleito, a força do trumpismo — para além do apoio ao próprio partido republicano — mostrou que há, sim, um apoio maciço de parte do eleitorado a políticas de direita, o que ficou claro também pela votação elevada em candidados do partido Republicano à Câmara e ao Senado norte-americanos.

Não é pouca coisa.

Seja nos EUA quanto no Brasil, a direita ainda é uma força importante e que com certeza terá candidato no segundo turno em 2022. Hoje, diante dos quadros apresentados, tudo leva a crer que esse candidato será mesmo Jair Messias Bolsonaro. Mesmo com o surgimento de Luciano Huck, da possível aliança de forças de centro-direita em torno do ex-ministro Sergio Moro, as últimas pesquisas para 2022 apontam Jair Bolsonaro como líder das intenções, vencendo em todos os cenários para o segundo turno.

E, mesmo com o avanço dos chamados partidos de centro nas últimas eleições municipais, até agora não surgiu nenhum adversário capaz de ameaçá-lo diretamente. O presidente segue favorito e já tirou da raia outros pretendentes a figurar como alternativa à direita ou à centro-direita.

O que pode mudar esse cenário é o desenrolar da pandemia, combinada à intensidade esperada da recuperação econômica esperada para os próximos anos. Está certo que a economia está em frangalhos e que o governo precisará tirar coelhos da cartola para resolver esse problema. Em 2020, por causa da Covid-19, o governo recebeu um cheque em branco para gastar, o que se traduziu em medidas de socorro a empresas e no importantíssimo auxílio emergencial. Ano que vem, estaremos de volta à realidade. Sem recursos extras e diante da amarração de um teto de gastos que, apesar de ter sido criado com a melhor das boas intenções, hoje configura-se uma amarração para a retomada do crescimento a partir de estímulos públicos para a criação de empregos e geração de renda.

Shazan e Xerife

A camicleta – folclórica oficina ambulante da dupla Shazan e Xerife no famoso seriado televisivo do começo dos anos 1970 – tinha “Conserta tudo: até coração” escrito sob o para-brisa. A frase pintada à mão tinha aparentemente no verbo consertar um “s” derivado de um “c”, ali indicando ter havido uma posterior correção ortográfica. Coisas de Brasil.

Esse amplo e irrestrito conserto oferecido por aquele cruzamento de caminhão e bicicleta, carregado de tralhas lúdicas, me remete à visão afetiva de um Brasil profundo e natural, aquele que, com jeitinhos e gambiarras, toca os dias duros da vida nacional com alegria e esperança. Sempre que precisávamos, surgiam líderes consertadores (com c) da situação que também era consertadores (com s), capazes de reunir contrários em favor do bem comum.

Temo agora que, após duas décadas de crescente polarização política e ideológica, esse nosso criativo e providencial jogo de cintura tenha se acabado ou esteja perto de se acabar. O Brasil que se acostumava a suportar crises sucessivas e a encontrar saídas na última (ou penúltima) hora, de forma inesperada, parece ter ficado à deriva em águas turbulentas.

Dom Pedro I foi embora para Portugal e deixou o trono para uma criança e seus tutores, os escravos negros foram libertos após duras prestações e depois lançados à marginalidade, parlamentarismo volta na República por breve período só para permitir posse de Jango, Tancredo e dissidentes do partido da ditadura restauram a democracia e Itamar é convencido a bancar um plano de estabilização que acabou com três décadas de inflação crônica.

E o que temos no momento? De radicalismo alimentando radicalismo e com a política sendo demonizada, a arte do consenso dá lutar ao confronto mais primitivo, quase que uma condição de enfrentamento tribal, no qual a força bruta vale mais. Nem mais os grandes acordos nacionais conquistados pós-Constituição de 1988 e que levaram ao mais longo período democrático da história parecem protegidos de revesses.

Com o centro político destruído, fenômeno que se repete em várias partes do mundo, o racha nacional parece ainda preponderar no Brasil e a definir a incerteza como única certeza. Imerso em gravíssimas crises sanitária e econômica, caminhando para a agudização das crises sociais e políticas, o país precisa de um cons(c)ertador-geral da República, mesmo que não queira sequer saber disso. E daí vem a maior das perguntas: quem?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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