Blog do Deco Bancillon

A captura e a venda do olhar nas telas formam a base do novo capitalismo global

A pandemia da Covid-19 apenas acelerou tendências de mercado no rumo da ampla dominação da economia da atenção, na qual o consumidor é alvo, mas também é um ativo. Extrativismo de dados pessoais se tornou o maior negócio do mundo e das marcas mais valiosas

SÍLVIO RIBAS | BRASÍLIA

Nem fórmulas de medicamentos milagrosos, nem algoritmos inteligentes de redes sociais e nem genes patenteados. A maior riqueza do século 21 é algo bem prosaico: a nossa atenção ou a nossa disposição em gastar nosso cada vez mais escasso tempo com alguma coisa. Não é à toa que esse tema instiga pesquisadores há anos e está na base dos negócios digitais e das estratégias das mais valiosas marcas globais, para distrair e cooptar o foco.

Esse rico complexo empresarial voltado à exploração da atividade mental humana concentrada sobre determinados objetos atua na movimentada e crescente economia da atenção. Nela, cada segundo registrado pelo relógio que reservamos a nossos interesses, sobretudo os não-essenciais, forma um ativo a ser captado, vendido e revendido. Isso porque, ao interagirmos bovinamente em plataformas online, nos tornamos, simultaneamente, consumidor e fornecedor.

Nada é de graça nessa vida, seja ela real ou virtual. Tudo o que lhe parece ser acessado gratuitamente na internet está, na verdade, lastreado no valor da atenção que você dedicou a variados locais da rede. Essa atenção revela o seu próprio potencial de consumo e converte quem vê, ouve e interage em alvo para o comércio de lista cada vez mais ampla de produtos e serviços, incluindo o seu perfil de eleitor e a sua capacidade de influenciar terceiros.

Se tempo é dinheiro, a atenção é a própria essência vital. Os seus instantes fatiados, classificados e embalados são colhidos e redistribuídos na web sem os limites da territorialidade e da cronologia. Tudo sempre presente, oferecido como presente nesse universo de muita informação e, sobretudo, absoluta distração. Falta-nos força para resistir ao desperdício de horas e acabamos capturados por sondagens de todo tipo, que vão todas muito além dos cliques.

Medições de comportamento, de tempo de conexão e, particularmente, de assuntos ou de objetos de desejo que nos despertam atenção estão na mira da indústria de navegações, mais lucrativas para os navegados do que para os navegadores. Dependentes e explorados, fazemos da nossa atenção labor não-remunerado, não só ao integrar cadastros de clientes potenciais, mas também ao fornecer imagens, localizações e referências sobre quase tudo.

Sem placa de aviso e com isca colocada até por nós mesmos, tombamos feito elefante caçado na floresta, para depois ter os preciosos marfins extraídos e levados a mercados paralelos. Triste é cair como patinho numa armadilha tola, um link com elementos que levam nacos de vida afundarem em águas turvas. Antes de distopias como as dos filmes Jogador Número Um e Matrix, somos forçados a experimentar episódios de Black Mirror.

A pandemia da Covid-19 escrachou a escala bilionária do balcão da atenção, quando a espera em semáforo de trânsito e na fila do elevador foi trocada por Netflix e e-commerce. Mas ocorre que a economia da atenção conspira contra a economia do conhecimento, outra locomotiva do mundo. Como conhecimento só se ganha com atenção, esse bem escasso deveria se expandir para gerar conhecimento, mas naufraga no oceano da informação.

Cinco marcas, US$ 5 trilhões

Uma excelente amostra do vertiginoso patamar atingido pelo capitalismo digital nesta década está nos dados que sustentam o artigo do jornalista Eugênio Bucci publicado no O Estado de São Paulo em 5 de agosto último. Ele lembrou que os valores de mercado de Alphabet (dona do Google), Amazon, Apple, Facebook e Microsoft atingiram em janeiro a espantosa soma de US$ 5 trilhões. A cifra equivale a três vezes o Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil. Se as cinco big techs fossem um país, teriam o terceiro maior PIB do planeta, superado só pelos de Estados Unidos e de China.

Para Bucci, a razão dessa fortuna na bolsa vai além da inovação tecnológica produzida pelas gigantes do mundo virtual e do talento de seu pessoal. Sua riqueza está na posição monopolista dentro da “economia da atenção”, definida por fazer negócio com o olhar e o desejo do consumidor captados por onipresentes telas. O extrativismo de dados pessoais se converteu em “novo petróleo”, tirando do topo do ranking global GE, Shell, Coca-Cola e outras marcas vinculadas à produção de coisas palpáveis. “A fabricação industrial de signos assumiu o centro da geração de valor”, asseverou.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.